sexta-feira, 27 de março de 2009

Negar é afirmar que não?


“Mas você também crê que Deus não existe!”


Se você é ateu ou agnóstico, com certeza já ouviu a frase acima. Se não, mas é uma pessoa interessada em informação, continue lendo. Esse argumento surge como uma tentativa de colocar duas posições (no caso, religiosas) num mesmo patamar. Será que dá no mesmo?

Vamos sair do polêmico âmbito espiritual, para ver como o dualismo surge em outras questões. Você acredita que o homem foi à lua? Existe vida fora da Terra? Bentinho recebeu um par de chifres de Capitu? Sim, não, talvez. Tanto faz. Afinal, não importa se você passou 30 anos meditando sobre um assunto ou se jogou cara-ou-coroa para tomar uma posição: no fim das contas, acreditar que sim é o mesmo que acreditar que não, que é o mesmo que acreditar que talvez, correto?


Não.



Pelo menos não neurologicamente.

ResearchBlogging.org
Sam Harris e seus colegas da UCLA(University of California, Los Angeles) usaram ressonância magnética funcional para analisar a atividade cerebral em situações de “crença”, “ descrença” e “incerteza”. Aos voluntários eram dadas sentenças sobre diferentes temas (religiosos, geográficos, matemáticos, éticos, semânticos...), e pedia-se que eles classificassem-nas como “verdadeiro”, ”falso” e “incerto”. O estudo não se propõe a refutar o (tosco) argumento que introduz o texto, já que não é preciso mais que bom senso para tanto. Ainda assim, os resultados são, no mínimo, interessantes.

Por exemplo:
  • (6+2) + 8 = 16
  • 62 é múltiplo de 9
  • 1.257= 32608.5153

Espera-se que, em geral a primeira, sentença seja tomada como verdadeira, a segunda como falsa e a terceira como ‘incerta’ (A menos que estejamos lidando com Rüdiger Gamm).

Não vou entrar nos pormenores de como funciona uma máquina de ressonância magnética, mas podemos dizer que a atividade é monitorada de acordo com o fluxo de sangue oxigenado, indicando atividade metabólica numa região. Pois bem, considerando o tempo de resposta e os mapas obtidos, os pesquisadores tentaram identificar as diferenças entre os três estados.



Sobre o tempo de reação: descrença (3.7s em média) e incerteza (3.66s) não diferiram muito. Classificar algo como verdadeiro levou em média menos tempo (3.26s). Qualitativamente, não é uma diferença significativa, mas, pelo menos como exercício de humor, vale lembrar o ditado de que "é mais fácil acreditar do que pensar".

Sobre as áreas cerebrais ativadas: Basicamente, monitorou-se a atividade englobando todo o cérebro e posteriormente compararam-se as regiões de uso exclusivo de cada estado. Eu poderia colocar os resultados na íntegra aqui, mas sinto que se começar a falar em córtex pré-frontal ventromediano, ínsula anterior, giro cingulado e lobo parietal superior, o blog ficará sem leitores em semanas poucas horas.

Enfim, nada como imagens:


Regiões ativadas em “crença” subtraindo as ativadas em “descrença”.


Regiões ativadas em “descrença” subtraindo as ativadas em “crença”.


Regiões ativadas em “incerteza” subtraindo as ativadas em “crença”.


Regiões ativadas em “incerteza” subtraindo as ativadas em “descrença”.


Conclusão: Há uma ressalva importante a ser feita. De fato, dentro do estado classificado como “crença”, os padrões para verdades matemáticas são diferentes dos padrões apresentados em verdades éticas ou religiosas, em menor ou maior proporção. Isso porque nos níveis mais altos da cognição, as informações são processadas em diferentes regiões.

Deixem-me exemplificar: se fizerem você ouvir duas notas musicais e então pedirem para que diga se as duas são idênticas, as áreas estimuladas serão diferentes das requisitadas se te pedissem para dizer se duas palavras são sinônimas, mesmo que a resposta fosse afirmativa para as duas perguntas.¹ No entanto, no fim das contas, a definição de uma assertiva como “verdadeira” ou “falsa” recorre a circuitos mais primitivos, basais.²



O copo acima está vazio? Ou não está cheio?

Objetivamente, a informação é a mesma. A maneira como seu cérebro reage, não. Nesse aspecto, é possível separar crença, descrença e incerteza com muito mais clareza. E as três são claramente distintas.

Harris, S., Sheth, S., & Cohen, M. (2008). Functional neuroimaging of belief, disbelief, and uncertainty Annals of Neurology, 63 (2), 141-147 DOI: 10.1002/ana.21301
Notas:

¹ Só por curiosidade, a análise dos sons requisitaria o córtex auditivo, no giro superior do lobo temporal direito, e para as palavras, a área de Wernicke, no lobo temporal esquerdo. Ainda assim, é uma grotesca simplificação, pois embora essas áreas sejam essenciais nos processos citados, veríamos atividade em várias outras regiões.

² Córtex pré-frontal medial e ínsula anterior. Regiões normalmente associadas à recompensas/emoções e percepções negativas respectivamente.



10 comentários:

  1. É caro amigo, é como te falo... você precisa começar a beber...

    De qualquer forma bem interessante, a idéia (ou ideia, maldita gramatica e seus seguidores) do blog em sí é muito boa.

    Quanto ao artigo, nunca fui fã de neurologia... Mas quando se fala de crenças e estudo neurologico sempre tem algo útil. Agora uma duvida: O nivel de conhecimento e o próprio nivel de crença afeta os resultados do teste? Classificar apenas como "Crença", "Descrença" e "Incerteza" é algo muito abraangente, onde a mente humana pode caracterizar por milhares niveis de certeza... Ou no caso, quanto mais forte for sua certeza, as áreas serão atingidas com facilidade ou com modificações aos testes "normais"?

    Por fim... Capitu traiu Bentinho. Ponto final e fim de historia.

    Abraços. Gabriel. (PS: Não consigo configurar esse e-mail... então fica assim mesmo)

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  2. Também acho que a Capitu traiu o Bentinho...

    Mas sobre o post, acho que faltou você colocar a fonte desse estudo feito pelo rapaz... Você apenas citou sem nos endereçar ao estudo na íntegra...

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  3. Gabriel,

    O nivel de conhecimento e o próprio nivel de crença afeta os resultados do teste?

    Pelo método que foi usado, creio que não. Mesmo porque "no fim das contas, a definição de uma assertiva como “verdadeira” ou “falsa” recorre a circuitos mais primitivos, basais."

    Eu também considero mais correto os rótulos de 'verdadeiro', 'falso' e 'dúvida', mas esses foram os termos originais usados no artigo. Talvez por influência de Sam Harris, que é militante dessa nova frente ateísta.

    Sobre o "grau" de certeza, essa pergunta é mais complicada de responder. Fica para outro post.

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  4. Isaac,

    Quem quiser os artigos originais pode pedir por e-mail.

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  5. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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  6. Se não crer é o mesmo que crer, então careca é cor de cabelo.

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  7. Parabéns pelo post e obrigado por se inscrever no ResearchBlogging.

    Abraços.

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  8. Oi Felipe, descobri com surpresa que seu blog cresceu e entrou na ResearchBlogging.

    Muito legal mesmo, parabéns!

    O Bule Voador tem um relato de outra pesquisa de Harris:

    "Respostas de cérebros de religiosos e de ateus a blasfêmias são similares"
    http://bulevoador.haaan.com/2009/10/01/cerebros/

    Grande abraço,
    Eli.

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  9. Pipo, você era um pregador virulento!

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