sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Cedo

Cedo


Clodoaldo era um cidadão paulista. Apesar de não ter nascido na “terra da garoa”, gostava do lar: o clima, as oportunidades de emprego, a vizinhança e os amigos. Clodoaldo veio de Sergipe muito novo. Com nove anos de idade seus pais o mandaram para viver com as tias, na esperança de garantir ao primogênito um futuro digno. Erro. Suas tias contavam muitos anos e não demoraram a morrer. Precocemente, o menino então largou os estudos para trabalhar.

Aos vinte e cinco, Clodoaldo, apesar de não possuir educação formal, não ficava desempregado. Sua força de vontade garantia o capital no fim do mês, que sustentava ele, sua mulher e seus dois filhos. Trabalhava como ajudante de pedreiro. Como precisava do dinheiro, nunca faltava um dia. Recebia o pagamento todo dia 5. É verdade que o orçamento era apertado, mas pagava as contas em dia. Era muito querido pelo seu mestre de obras, o Júlio, porque não enrolava no serviço.

Voltava do trabalho por volta das dez horas da noite. Apanhava sua magrela no canto da obra e pedalava até sua casa. O jornal apontava as altas estatísticas de violência na cidade. Excesso de furtos, assaltos e assassinatos. Sua esposa começava a se preocupar:
- Clodoaldo, você está chegando muito tarde, amor…
Ao que o sergipano retrucava:
- Tarde, mas com o dinheiro.
Mas naquele dia, Ana, a mulher de Clodoaldo, persistiu.
- É porque você não assiste o noticiário. Aquela área está ficando perigosa… Fale com o Júlio, ele vai entender.
Murmurou que pediria ao Júlio que o liberasse mais cedo.

A conversa não preocupou Clodoaldo, que foi ao encontro de seus amigos. Ele, que trabalhava durante o dia e à noite relaxava nas rodas musicais. Ali, naqueles humildes círculos amigáveis, demonstrava sua habilidade com a gaita, instrumento que aprendeu ainda no sertão sergipano. Com ela entre os lábios e acompanhado da zabumba e triângulo, dava um show em quase todos os encontros.

No outro dia, apesar do grau de amizade com o seu chefe, seu acanhamento e medo de perder o emprego fizeram com que ele guardasse o pedido para si. Chegou a ensaiar um discurso mentalmente enquanto erguia um parapeito, mas preferiu não aventurar.
Naquele dia saiu um pouco mais cedo, mas nada que acalmasse sua mulher.
-Clodoaldo, já vi que não conversou com seu Júlio.
- E se ele quiser me demitir? – Clodoaldo respondeu, expondo seu temor.
-Meu amor, não existe isso. Pára de colocar minhocas em sua cabeça, ele vai aceitar…

Acordou disposto, o dia 5 era o dia do seu pagamento. Sua mulher lembrou-o do pedido e Clodoaldo saiu pedalando. Viu o comércio abrindo, pedestres que se esforçavam para atravessar as avenidas e a guerra entre motoristas e motoboys. Enfim, chegou ao trabalho onde foi se preparando para a obra. Apanhou suas ferramentas e começou conversando com o mestre sobre as instruções do posicionamento e medidas do muro que iria erguer. Esperou até a refeição vespertina para pedir ao chefe o que sua mulher tanto insistira nas noites passadas. Hesitou por um instante, mas com o discurso em mente comentou:
- Olha, seu Júlio. Já venho trabalhando com você há muito tempo e desses anos todos só tenho uma queixa a fazer.
- Pois diga logo…
- É que a cidade fica mais violenta a cada dia. A minha esposa está preocupada e peço ao senhor que me libere um pouco mais cedo de hoje em diante.
O Júlio coçou a cabeça por alguns instantes.
-A culpa não é minha. A construtora quer o projeto para o final do ano.
-Meia hora que for.
O ajudante de pedreiro continuou encarando-o com cara de coitado, fazendo-o pensar que talvez não fosse um mal tão grande.
- Pode ser. Sinceramente, você produz muito mais que os outros. Se continuar dessa forma, libero meia hora mais cedo. Só não pode amolecer!
Clodoaldo pensou por alguns instantes e, por caminhos tortuosos, concluiu que sua esposa era uma pessoa inteligente. Voltou ao trabalho.

Às oito, o parapeito estava erguido. O mestre de obras apanhou o contracheque em sua bolsa e entregou ao funcionário.
- Tome, pode ir agora, se quiser.
- Obrigado, seu Júlio.
Saiu pedalando serelepe pelas ruas de São Paulo. Comemorava mentalmente um misto de euforia, proporcionada pela patética conquista, e de tranqüilidade, por imaginar satisfazer o pedido de sua esposa, finalmente chegando cedo em casa. E foi deleitando-se com estes devaneios que Clodoaldo não percebeu o ônibus dando sinal. E foi pensando na hora que foi atingido em cheio por toneladas de aço carregando dezenas de pessoas atrasadas. E foi no dia em que voltaria mais cedo que não chegou em casa.

Isaac César C. Argôlo e Felipe C. Argôlo


2 comentários:

  1. História bem escrita, consegue prender o leitor. É de seu irmão? Ou sua mesmo?

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  2. Ele escreveu uma crônica. Eu revisei e mudei o fim.

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