terça-feira, 31 de março de 2009

Metal retorcido e arte



Gostou do cérebro de cobre e algodão que ilustrou o último post? É um dos trabalhos da talentosa escultora Margie McDonald. Usando ferro, aço, cobre, alumínio, plástico e o outros tipos de "sucata", a artista consegue contruir obras deslumbrantes, como o Nautilus acima. Clique nas imagens para visitar o site oficial.

“My work explores the deconstruction of the structural integrity of marine materials and transforms their industrial purposes to reveal their textures and reflectivity.”




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sexta-feira, 27 de março de 2009

Negar é afirmar que não?


“Mas você também crê que Deus não existe!”


Se você é ateu ou agnóstico, com certeza já ouviu a frase acima. Se não, mas é uma pessoa interessada em informação, continue lendo. Esse argumento surge como uma tentativa de colocar duas posições (no caso, religiosas) num mesmo patamar. Será que dá no mesmo?

Vamos sair do polêmico âmbito espiritual, para ver como o dualismo surge em outras questões. Você acredita que o homem foi à lua? Existe vida fora da Terra? Bentinho recebeu um par de chifres de Capitu? Sim, não, talvez. Tanto faz. Afinal, não importa se você passou 30 anos meditando sobre um assunto ou se jogou cara-ou-coroa para tomar uma posição: no fim das contas, acreditar que sim é o mesmo que acreditar que não, que é o mesmo que acreditar que talvez, correto?


Não.



Pelo menos não neurologicamente.

ResearchBlogging.org
Sam Harris e seus colegas da UCLA(University of California, Los Angeles) usaram ressonância magnética funcional para analisar a atividade cerebral em situações de “crença”, “ descrença” e “incerteza”. Aos voluntários eram dadas sentenças sobre diferentes temas (religiosos, geográficos, matemáticos, éticos, semânticos...), e pedia-se que eles classificassem-nas como “verdadeiro”, ”falso” e “incerto”. O estudo não se propõe a refutar o (tosco) argumento que introduz o texto, já que não é preciso mais que bom senso para tanto. Ainda assim, os resultados são, no mínimo, interessantes.

Por exemplo:
  • (6+2) + 8 = 16
  • 62 é múltiplo de 9
  • 1.257= 32608.5153

Espera-se que, em geral a primeira, sentença seja tomada como verdadeira, a segunda como falsa e a terceira como ‘incerta’ (A menos que estejamos lidando com Rüdiger Gamm).

Não vou entrar nos pormenores de como funciona uma máquina de ressonância magnética, mas podemos dizer que a atividade é monitorada de acordo com o fluxo de sangue oxigenado, indicando atividade metabólica numa região. Pois bem, considerando o tempo de resposta e os mapas obtidos, os pesquisadores tentaram identificar as diferenças entre os três estados.



Sobre o tempo de reação: descrença (3.7s em média) e incerteza (3.66s) não diferiram muito. Classificar algo como verdadeiro levou em média menos tempo (3.26s). Qualitativamente, não é uma diferença significativa, mas, pelo menos como exercício de humor, vale lembrar o ditado de que "é mais fácil acreditar do que pensar".

Sobre as áreas cerebrais ativadas: Basicamente, monitorou-se a atividade englobando todo o cérebro e posteriormente compararam-se as regiões de uso exclusivo de cada estado. Eu poderia colocar os resultados na íntegra aqui, mas sinto que se começar a falar em córtex pré-frontal ventromediano, ínsula anterior, giro cingulado e lobo parietal superior, o blog ficará sem leitores em semanas poucas horas.

Enfim, nada como imagens:


Regiões ativadas em “crença” subtraindo as ativadas em “descrença”.


Regiões ativadas em “descrença” subtraindo as ativadas em “crença”.


Regiões ativadas em “incerteza” subtraindo as ativadas em “crença”.


Regiões ativadas em “incerteza” subtraindo as ativadas em “descrença”.


Conclusão: Há uma ressalva importante a ser feita. De fato, dentro do estado classificado como “crença”, os padrões para verdades matemáticas são diferentes dos padrões apresentados em verdades éticas ou religiosas, em menor ou maior proporção. Isso porque nos níveis mais altos da cognição, as informações são processadas em diferentes regiões.

Deixem-me exemplificar: se fizerem você ouvir duas notas musicais e então pedirem para que diga se as duas são idênticas, as áreas estimuladas serão diferentes das requisitadas se te pedissem para dizer se duas palavras são sinônimas, mesmo que a resposta fosse afirmativa para as duas perguntas.¹ No entanto, no fim das contas, a definição de uma assertiva como “verdadeira” ou “falsa” recorre a circuitos mais primitivos, basais.²



O copo acima está vazio? Ou não está cheio?

Objetivamente, a informação é a mesma. A maneira como seu cérebro reage, não. Nesse aspecto, é possível separar crença, descrença e incerteza com muito mais clareza. E as três são claramente distintas.

Harris, S., Sheth, S., & Cohen, M. (2008). Functional neuroimaging of belief, disbelief, and uncertainty Annals of Neurology, 63 (2), 141-147 DOI: 10.1002/ana.21301
Notas:

¹ Só por curiosidade, a análise dos sons requisitaria o córtex auditivo, no giro superior do lobo temporal direito, e para as palavras, a área de Wernicke, no lobo temporal esquerdo. Ainda assim, é uma grotesca simplificação, pois embora essas áreas sejam essenciais nos processos citados, veríamos atividade em várias outras regiões.

² Córtex pré-frontal medial e ínsula anterior. Regiões normalmente associadas à recompensas/emoções e percepções negativas respectivamente.



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domingo, 22 de março de 2009

Demônio de Laplace e a ciência


Bom, este é o post inaugural do blog, que pretendo manter como uma forma de expressar meus pensamentos, idéias e opiniões (por mais bizarros que sejam). Além de uma terapia, é uma tentativa de escrever com regularidade, portanto circularão aqui variados temas. Minha intenção é fazer divulgação científica, com um pouco de liberdade poética.

Começarei explicando o título da página. Para quem nunca ouviu falar no bichinho, o demônio de Laplace é o ente que protagoniza um experimento mental proposto por Pierre-Simon Laplace (1749-1827) em 1814.



Nessa época, os progressos da ciência (em especial da mecânica Newtoniana) incentivavam a perspectiva de que todo o universo seguia leis estáveis, previsíveis e matematicamente possíveis de serem descritas. Prato cheio para os deterministas. Laplace (um físico e matemático brilhante, que merece seu próprio post futuramente) conjecturou o seguinte: se um intelecto soubesse o estado (velocidade, posição, massa, carga elétrica...) de todas as partículas do universo no presente momento, seria possível prever o futuro, assim como determinar o que havia ocorrido antes do presente.




Nas palavras do próprio Laplace:

“Podemos considerar o presente estado do universo como resultado de seu passado e a causa do seu futuro. Se um intelecto em certo momento tiver conhecimento de todas as forças que colocam a natureza em movimento, e a posição de todos os itens dos quais a natureza é composta, e se esse intelecto for grandioso o bastante para submeter tais dados à análise, ele incluiria numa única fórmula os movimentos dos maiores corpos do universo e também os do átomo mais diminuto; para tal intelecto nada seria incerto e o futuro, assim como o passado, estaria ao alcance de seus olhos.”

É óbvio que demônio soa bem melhor que intelecto, sendo esse o nome que pegou (a
ssim como ocorreu com o Demônio de Maxwell). Não é interessante a idéia de um diabinho que de tudo sabe?

  • Fisicamente esse ser poderia existir?
O cérebro (ou equivalente) da criatura provavelmente teria de ser maior do que o universo, mesmo que ela conseguisse armazenar 1 bit (menor unidade de informação) em unidades com comprimentos próximos ao comprimento de Planck (1,6 × 10-35 m); como a velocidade máxima em que a informação se propaga é a da luz, as operações não seriam realizadas a tempo. Além disso, certas características da física moderna, como o caráter probabilístico e o princípio da incerteza, acabaram por chacoalhar um pouco o pensamento determinista ortodoxo.



Esse demônio já nasceu exorcizado de nossa existência. Então por que diabos eu dei esse nome ao blog? Ora, se ignorarmos as implicações físicas da conjectura, ela se torna intelectualmente tão bela! Imaginem por um segundo como é estar ciente de tudo o que ocorreu e ocorrerá. O demônio de Laplace saberia o que você está imaginando e o que vai imaginar em alguns segundos.

Tal capacidade calaria os anseios que corroem todo curioso. Quando me refiro à curiosidade, não é apenas sobre o resultado do próximo paredão do BBB ou do final da novela. A curiosidade vai além e, arrisco dizer, é o motor do conhecimento! O que mais move um investigador da natureza (seja ele um filósofo grego nascido em 300 a.C, um físico do MIT, um alquimista, ou um pajé que procura a erva medicinal correta) se não a curiosidade e o fascínio pelas leis naturais?

Já que não é possível personificar o Demônio de Laplace, o que nos resta é buscar compreender o mundo pelos meios que estão ao nosso alcance. Não há certezas. Apenas evidências, observações e correlações, inferências, deduções. Nada tão satisfatório quando a onisciência demoníaca supracitada, mas é disso que nosso conhecimento é feito. Os séculos de esforços empreendidos por vários pensadores resultaram num método específico de obter conhecimento da maneira mais sólida quanto possível. É o que chamamos de método científico.

Apesar dos avanços, a ciência não faz mágica. Evidências, observações, hipóteses, experimentos, frustrações, mais observações, novas hipóteses, inferências e incertezas. A boa ciência é dispendiosa, trabalhosa e demorada. Os resultados, em curto prazo, são parcos, lentos e caros. Pode-se dizer que quanto mais progredimos, mais perguntas surgem.

“(...) toda nossa ciência, comparada à realidade, é primitiva e infantil - e ainda assim, é a coisa mais preciosa que temos.”

Albert Einstein


Um obrigado especial para meu camarada Philipe Farias (Fraks), o designer do site.



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