quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Câncer: abordagem evolutiva

Imagine uma população de animais de qualquer espécie vivendo em um determinado espaço. Sob a luz da evolução, o que acontece se um deles sofre mutações, passa a se reproduzir desordenadamente e não morre na mesma idade que os outros, transmitindo essa característica aos seus descendentes? Sua cria vai se espalhar rapidamente, consumindo recursos e causando danos, prejudicando os indivíduos ao redor.

Substitua animal por célula no trecho acima. Câncer.





“(...) os cânceres surgem por um processo de seleção clonal que não é diferente da seleção dos animais em uma grande população. Uma mutação em uma célula daria a ela uma leve vantagem de crescimento. Uma das células da progênie sofreria, então, uma segunda mutação que permitiria a seus descendentes um crescimento mais descontrolado e formaria um pequeno tumor benigno; uma terceira mutação em uma célula desse tumor permitiria um crescimento livre das outras células e das limitações impostas pelo microambiente tumoral, e sua progênie formaria uma massa de células cada uma com essa três mutações. Uma outra mutação em uma dessas células permitiria que sua progênie escapasse para a corrente sanguínea e estabelecesse colônias filha em outros sítios, uma característica do câncer metastático.”¹

Determinadas células sofrem mutações nos genes certos errados (basicamente proto-oncogenes e genes supressores tumorais). Em decorrência das modificações, passam a ser insensíveis aos sinais anticrescimento, escapam da morte celular programada (apoptose), reproduzem-se e crescem num ritmo frenético, invadem tecidos vizinhos, enviam sinais químicos para que o organismo as nutra.

Uma infeliz demonstração do poder que a seleção natural tem.

Como parar o câncer? Pare a evolução das populações de células.

Mark Ridley lista quatro condições básicas para que o algoritmo da seleção natural funcione.

“A seleção natural é mais fácil de ser abstratamente compreendida como um argumento lógico, que leva das premissas uma conclusão. O argumento, na sua forma mais geral, requer quatro condições:

1. Reprodução. As entidades devem se reproduzir para formarem uma nova geração.
2. Hereditariedade. A progênie deve tender a lembrar o seus progenitores:grosseiramente falando, “similar deve produzir similar”
3. Variação entre caracteres individuais entre os membros da população. Se estudando a seleção natural sobre o tamanho corporal, então diferentes indivíduos na população devem ter diferentes tamanhos corporais.
4. Variação de aptidão do organismo de acordo com seu estado quanto a um caráter herdável. Na teoria evolutiva, a aptidão é um termo técnico, que significa o número médio de descendentes diretos deixado por um membro médio da população. Portanto, essa condição significa que um indivíduo da população com alguns caracteres deve ter uma maior probabilidade de reproduzir-se (i.e, ter uma maior aptidão) do que outros.”²


Se entendemos o câncer como células evoluindo por seleção natural, cada forma de combate ao câncer trabalha no sentido de impedir que essa evolução ocorra.

Prevenção

Não fume. Perigo, material radioativo. Consuma álcool com moderação. Use protetor solar.
Existe uma probabilidade considerável de que fumar cause mutações cancerígenas nas células dos pulmões, assim como o álcool no esôfago, a radiação UV em sua pele... Evitando-os, evita-se mutações e, conseqüentemente a variação entre caracteres individuais entre os membros da população (3).

Quimioterapia e Radioterapia

Uma das características que distingue células tumorais das normais é a alta taxa de divisão celular (mitose). A princípio, essa é uma característica de alto valor adaptativo (segundo a definição de adaptação acima), já que muitos “descendentes” serão gerados. As drogas interferem no processo de mitose de células de crescimento rápido, que também são vulneráveis à radiação. Dessa forma, os indivíduos são impedidos de se reproduzirem (1) e muda-se o valor adaptativo do carácter em questão (alta taxa de reprodução), tornando-o desvantajoso (4) No nosso exemplo dos animais, que introduz o texto, imagine que surge um vírus sazonal no ambiente, causando complicações no nascimento de novos indivíduos e matando ainda os pais. Os indivíduos que se reproduzem desenfreadamente sumirão em um curto intervalo. Um efeito colateral é que outras células de divisão rápida no organismo morrem também. (Daí a queda de cabelo, devido à morte dos folículos pilosos)


Cirurgia

Uma mão gigante vem do céu e “guia” a evolução, literalmente extirpando certos indivíduos. O sonho de todo criacionista. Aliás, existe a analogia de que Deus é um cirurgião gigante? Nesse caso, tenho que admitir que funciona perfeitamente.



¹ Lodish, H. et al. Biologia Celular e Molecular. Trad de Ana Leonor Chies Santiago-Santos. 5 ed. Porto Alegre: Artmed. 2005. 1054 p. :il.

²Ridley, M. Evolução. Trad Ferreira H, et al. 3 ed. Porto Alegre: Artmed. 2006. 752 p. :il.




Nenhum comentário:

Postar um comentário