domingo, 7 de março de 2010

Homeopatia, o que eu penso

Prometi escrever um texto com minha opinião sobre. Aí vai.



O que é Homeopatia?

ResearchBlogging.org Primeiro, é importante entender o que é Homeopatia. O conceito geral é de que é uma forma de medicina alternativa. Nas palavras de uma homeopata:

“A medicina homeopática é um sistema farmacêutico natural que utiliza microdoses de substâncias dos reinos vegetal, mineral e animal para despertar as reações de cura naturais de uma pessoa.”1

A corrente baseia-se no princípio similia similibus curantur (“Semelhantes são curados por semelhantes”), o que significa que as doenças devem ser tratadas com substâncias que causam os mesmos sintomas apresentados. Insônia? Talvez um pouco de cafeína. Pedra nos rins? Quem sabe um suplemento de cálcio ajuda.

Vamos supor que um paciente tenha histórico familiar de doenças cardiovasculares. O Acônito é uma planta venenosa, sendo usado durante muito tempo em lanças e flechas para caçar e em batalhas. Um dos sintomas imediatos de suas toxinas é arritmia cardíaca. A idéia é fazer com que seu corpo reconheça o mal causado e reaja por si, recuperando o equilíbrio, então não se espante se em seu remédio homeopático para o coração consta Aconitum nappelus.

Não se espante mesmo. Da forma como a substância está lá, não fará mal algum. Outro pilar da homeopatia é a superdiluição das drogas usadas. Este é um dos principais motivos pelos quais a medicina tradicional rejeita a homeopatia. Segundo a disciplina, a diluição do princípio ativo não prejudica sua ação, mas modifica seu “potencial energético”.



A concentração é medida em “CH” (Centesimal Hahnemanniana). Cada centesimal é feita da seguinte forma: dilui-se uma gota de substância em 99 de água. Isso é 1CH. Depois, uma gota dessa solução 1CH em mais 99 de água. Temos 2CH. Efetuado esse procedimento, é como se tivéssemos colocado uma gota da substância original em 10.000 de água. A concentração considerada ideal pelo pai da homeopatia é de 30CH, o que significa uma gota da substância em 10 elevado a 60ª potência gotas de água.

Funciona?

Antes de responder essa pergunta, é importante olhar o aspecto físico-químico da coisa. A matemática envolvida pode ser chata para algumas pessoas, mas considero ser importante esse tipo de análise.

Quando se toma uma droga convencional, a quantidade é calculada pelos químicos que a desenvolveram. Semana passada, meu irmão mais novo sofreu um acidente na academia (um corte relativamente grande no dedo indicador, com fratura na falange distal) e o médico receitou um antibiótico, destinado a evitar infecções bacterianas. Cefalexina 500mg. Antes de essa droga ser vendida, foram feitos testes clínicos, no intuito de conhecer os efeitos da droga e analisar seu comportamento no organismo e na ação contra bactérias.2



Na homeopatia, os testes são um pouco diferentes. O motivo é simples de entender, mas é necessário ter uma noção do grau de diluição utilizado. Para isso, vamos acompanhar a concentração num remédio homeopático, a partir de um exemplo trivial e simplificado.

Consideremos que em 1 gota, há 1 mol (6,02x1023 moléculas) do material .Essa é uma gota bem grandinha. Para efeito de comparação, um mol de carbonato de cálcio (Calcarea carbônica na homeopatia) tem 100g. Antes do processo, temos 6,02x1023 moléculas. 1CH: Um centésimo das moléculas ficam. 2CH: uma de cada 10.000 moléculas ficam. Quanto mais diluímos, menos moléculas que supostamente deveriam ser o princípio ativo da droga estão na solução.

Ao chegarmos em 12C, já existe uma chance de que não haja uma molécula sequer da substância original. Quando diluímos a 16CH, a probabilidade de existir uma única molécula que não seja de água é de 0,000000006% . Cada unidade CH aumenta dois zeros depois dessa vírgula. Por fim, ganhar na mega-sena quatro vezes seguidas comprando apenas um bilhete em cada sorteio é muito mais fácil que achar um átomo de cálcio em uma Calcarea carbônica 30CH. Literalmente. 3

Conclusão: colocando água pura e uma solução 30CH sob análise, não haverá diferença alguma. Do ponto de vista farmacológico, beber água é a mesma coisa que o tratamento. O procedimento homeopático não condiz com a ciência atual. Mas e daí?

A pedra alienígena

Imagine que um meteorito caiu em algum lugar da Terra com inscrições em hieróglifos egípcios: “Essa pedra cura câncer”. Mandam-na para um laboratório e o grupo de cientistas encarregados afirma ser uma pedra normal, de composição química conhecida e sem propriedades especiais. No entanto, uma seita de adoradores da pedra voadora reúne 1.000 portadores de câncer e 990 deles vêem seus tumores desaparecerem instantaneamente. Os céticos que chorem: com explicação teórica ou não, contradizendo a ciência atual, os poderes do bólido intergaláctico são inquestionáveis.




É muito improvável que os cânceres regridam espontaneamente por puro acaso quando os portadores chegam perto da pedra. Estabelece-se uma razão causal artefato-cura. Ora, o fato é que o meteorito cura, só não sabemos como. A saída da homeopatia é parecida.

Apesar de a ciência repudiar a teoria, não há como refutar resultados concretos de cura. Dessa forma, vários ensaios são feitos (ensaios clínicos randomizados, ou ECRs), comparando homeopatia à placebo. Escolhemos 300 pessoas com rinite alérgica, damos pílulas homeopáticas a 150 delas e balinhas de farinha de trigo às outras 150 (sem que essas pessoas saibam qual é qual). Se o grupo das pílulas apresentarem quadro significantemente melhor que o grupo controle (das balinhas), homeopatia funciona. Se não, não.

O que os estudos mostram?

A maioria mostra efeito substancialmente igual ao placebo (pelo menos todos os quais já tive contato, diretamente ou indiretamente). Alguns mostram efeito ligeiramente positivo, sendo que boa parte destes apresentam defeitos na metodologia ou não demonstram efeitos iguais quando reproduzidos por outros grupos. Essa última observação é importante. Para a ciência, não basta lograr sucesso num experimento: é necessário descrever os métodos utilizados, permitindo que outros grupos repitam com sucesso o mesmo experimento.

Para quem quer uma coletânea completa da literatura sobre o assunto, assim como uma análise mais científica do tema, recomendo esse artigo e esse e esse. Todos de Renan Moritz V. R de Almeida, Ph.D . Professor de bioestatística na UFRJ, ele fez um levantamento (meta-análises e revisões sistemáticas) de vários trabalhos publicados nos últimos tempos. Pelo menos até os dias atuais, as pesquisas não indicam efeito significativo.

Mais uma ressalva. Como disse Carl Sagan, “afirmações extraordinárias requerem evidência extraordinária”. Em nosso caso, se você diz que uma substância quimicamente idêntica à água pura tem poder terapêutico, é bom ter algo melhor que uma tímida indicação estatística.

Mas minha tia tinha câncer, tomou e ficou boa!

Por fim, os argumentos anedóticos. Artigos científicos à parte, o que faz as pessoas procurarem tratamentos alternativos é a existência de relatos como esse. Essa parte serve também para outras opções de medicina (medicina chinesa, chás, umbanda, orações, simpatias, etc.). Sobre esses argumentos, tenho duas considerações

Primeiro, geralmente não há como comprovar a existência da doença antes da cura. Claro que provavelmente você confia no seu primo que curou a asma crônica dele, mas não espere que o resto das pessoas passe a beber urina de preá ou chá de rosas baseando-se nessa história. Assim como seu primo é um rapaz honesto, mil embusteiros podem inventar milhares de coisas para promover certos tratamentos e ganhar dinheiro com isso.


My miracle tea

Clique e descubra as maravilhas desse chá

Segundo, pense em grandes números. Estima-se que 1 em cada 100.000 cânceres regridam espontaneamente 4 . (Em alguns tipos de tumor, menores, a taxa chega a 22%, segunda alguns estudos5). Optando pela explicação mais simples (navalha de Occam), o câncer regrediu espontaneamente ou vamos jogar fora boa parte do que conhecemos em farmacologia?

No caso da homeopatia e outras “ciências” mais sofisticadas, temos adeptos mais educados, relatos de pessoas academicamente mais instruídas. Em minha opinião, um relato dessas pessoas sobre cura com pó de chifre de rinoceronte abençoado pelos gurus indianos vale tanto quanto o de minha avó sobre óleo de coco resolver calvície. (História real. Durante um mês, passei óleo numa cicatriz em minha cabeça. A propósito, ainda não tem cabelo lá e o cheiro é bastante enjoativo. Eu tinha 13 anos.)

1ULLMAN, Dana. Homeopatia - Medicina para o Século XXI. São Paulo:Cultrix, 1988.
2Segunda a bula, verificou-se que uma hora após doses de 500mg e 1g, os níveis sanguíneos ficaram entre 18 e 32 mcg/ml. Além disso,pode-se medir alguma concentração no sangue mesmo 6 horas após a ingestão. Eu poderia pesquisar na literatura médica alguns artigos sobre ensaios clínicos randomizados com a substância, mas acho que não é necessário para o meu argumento.

3Considerei que em cada diluição, partes equitativas da substância seriam divididas. Logo, em 1C, 1 centésimo das moléculas ficariam . 2C, 1/10.000. Em 12C, nós temos aproximadamente 60,2% de chances de termos alguma molécula. 13C, multiplicamos 0,602 por 0,01 e assim por diante. Em 30C, a probabilidade é de 6,02x10-37. Na mega-sena a chance de acertar com um bilhete é aproximadamente de 1 em 53.000.000, ou 1,88x10-8. Se ganharmos quatro vezes, temos 6,64x10-32, que é aproximadamente 100.000 vezes maior que 6,02*10^-37. Assim, é MUITO mais fácil acertar quatro vezes seguidas na mega-sena do que achar uma só molécula de cálcio no remédio.

4 Hobohm, U.: [1] Fever and cancer in perspective, Cancer Immunol Immunother 2001) 50: 391-396

5 Per-Henrik Zahl; Jan Mæhlen; H. Gilbert Welch: The Natural History of Invasive Breast Cancers Detected by Screening Mammography, Arch. Intern Med., Vol 168 (NO. 21), Nov 24, 2008

BBC Horizon Homeopathy The Test (Documentário)

Almeida, R. (2003). A critical review of the possible benefits associated with homeopathic medicine Revista do Hospital das Clínicas, 58 (6) DOI: 10.1590/S0041-87812003000600007


5 comentários:

  1. Parabéns pelo blog, cara!
    Excelente abordagem dos temas e prazerosa leitura pra quem gosta da área.
    Li todos as postagens e gostei bastante.
    Espero que continue com toda a dedicação e criatividade ;D

    ResponderExcluir
  2. Oi Felipe ;D

    Estudo no Sistema e conheci sua fama, e tenho que admitir que você é inteligente e escreve muito bem. Continue postando :)

    ResponderExcluir
  3. Obrigado pelos elogios. Ter leitores que gostam do blog me faz continuar postando.

    Abraços,

    Felipe Argôlo

    ResponderExcluir
  4. Favor apresentar dados de resultados desses estudos, senão a conclusão do post é inválida.

    ResponderExcluir